Arte com utilidade

A complexidade dos processos de criação nas práticas artísticas contemporâneas, não aproximam a linguagem da Arte ao comum dos cidadãos. Que são a maioria, não a minoritária elite intelectual.

O envolvimento da Academia na vivência quotidiana comum, através do alinhamento dos seus projectos de investigação científica para com questões preementes para a vida comum das pessoas, indo desde as áreas da educação inter e multicultural, minorias étnicas, património educativo e cultural, ao Civismo, permite a criação das condições para uma aproximação a uma abordagem participativa, a várias vozes, com as comunidades para onde ela é destinada, trabalhando com elas e não para elas, resultando daí uma Arte útil, quer no sentido funcional, quer no sentido do desenvolvimento social.

O circuito artístico é um circuito fechado, pouco dado a aberturas para além do perímetro circunscrito ao do mercado da arte, onde o que escapa a essa bolha, pouco mais é do que o entretenimento com as políticas culturais populares do poder local. Este não é onde se encontra o circuito artístico, mas sim um pálido reflexo do mesmo. Não é por aqui que se faz a ligação e o canal entre o circuito e o cidadão comum. Faz-se pelo esforço de tornar o uso da linguagem artística hermética, num espaço comum, para quem não é nem anda nesse contexto. Dá trabalho esse processo e não é pouco.

A academia é, por excelência, o centro cultural ideal para pensar nas formas de se o fazer, da forma mais eficaz. E os agentes culturais, o veículo para canalizar o mesmo. Logo, só em parceria entre a Academia e os mesmos é possível obter-se esta sinergia que a toda a Cultura Nacional beneficia, ao se aproximar do cidadão comum, criando novos públicos futuros por esta via, para outros produtos culturais, até pouco sensibilizados na consciência dos cidadãos, por não lhes ter sido dada a oportunidade de treinarem o seu olhar, se fruírem de outra maneira, o que até aí não captavam.

Não é confundível uma hipotética atitude paternalista, com uma medida de educação cultural para a melhoria da vida social do cidadão comum, uma vez que o propósito visa o desenvolvimento cultural e a forma mentis das pessoas, para seu próprio benefício pessoal e, criticidade na exigência do consumo cultural, o que obriga a maior qualidade na produção artística, sendo um ciclo virtuoso e não uma forma subversiva de dispositivo de controlo social para fins políticos condicionadores das liberdades individuais, de cada cidadão, nas escolhas futuras a fazer. Só por má fé ou desonestidade intelectual se pode conceber este tipo de medidas políticas como de carácter paternalista e estatizantes.

Tanto mais que é uma forma de justificar a própria razão de ser da Classe Pensante na Academia e de um dos seus principais papéis sociais para a estrutura de gastos de umas Finanças Públicas de qualquer estado de Direito que existe para desenvolver e manter esse estatuto democrático.